Sábado de manhã. Eu deveria estar me arrumando para ir a um evento de cinema + filosofia no Teatro Nelson Rodrigues, mas acordei com o corpo inteiro doendo e uma fraqueza que me fazia querer realizar uma fusão com a colcha. Compromisso desmarcado. Descanso orquestrado com resmungos murmurados, repletos de reductio ad absurdum catastrofistas referentes ao meu estado debilitado e xingamentos criativos quando à culpa do universo nisso tudo.
Mas no meio da tarde eu já estava melhor. A cabeça tinha parado de doer, pelo menos, e eu não me sentia mais com a cara do Marvin.
Frio suspenso no ar, quase se materializando num amálgama vaporoso. Uma xícara de cappuccino de chocolate fumegando na mesa. Muitos livros e HQs espalhados. Outro tanto de papéis xerocados de textos da faculdade. E uma quantidade alarmante de abas do Word e do leitor de pdf abertas ao mesmo tempo. Textos e mais textos sobre psicologia, psicanálise e filosofia. Alternava entre uma leitura e outra fazendo marcações pontuais e anotações apressadas no bloco de notas. Nos fones de ouvido, Ellie Goulding cantava um “so we burst into colors, colors and carousels” [1] e o clima de contemplafantasiação etérea da música contrastava com a densidade dos textos sendo estudados.
Correndo contra o tempo para terminar um trabalho da disciplina de Psicologia da Educação, mergulhei nos conceitos freudianos de angústia. Um texto achado aleatoriamente pela interwebz quando me jogay no Google me levou a comparar os conceitos psicanalíticos com as filosofias de Kierkegaard e Sartre. Pronto, estava formado meu sábado existencialista com pequenos e insistentes resquícios de uma magia poética que se perdia no synthpop que estourava no iTunes. E o desespero dessa cultura de hyperlink não deixando o mouse quieto um segundo sequer.
“O homem (...) está irremediavelmente perdido, caiu do lugar que lhe é próprio sem conseguir encontrá-lo novamente, e o busca por toda parte com inquietação e sem êxito, mergulhado em trevas impenetráveis”. Assim Blaise Pascal descreve a situação trágica do ser humano.” [2]
Parei pra ler o mesmo trecho de citação umas cinco vezes antes de prosseguir. Imediatamente me veio à mente uma ilustração do genial e controverso Robert Crumb, em que ele se desenha num estado de pura fragilidade, exposição e desamparo. Nu e sentado numa salinha claustrofóbica, imunda e iluminada por uma única e decrépita lâmpada pendente do teto baixo, ele abraça os próprios joelhos e ostenta uma expressão exagerada de nada mais nada menos do que a famigerada angústia. Olhos arregalados e rabiscados de veias. Talvez uma das imagens mais perturbadoras do artista, desbancando todas as loucuras sexuais e pornográficas que marcam seu trabalho na nona arte.
Pensei em fazer uma releitura dessa imagem no trabalho, que estava sendo construído em cima de um quadrinho de Maurício de Souza (sobre o Piteco, um personagem homem da caverna que perde sua clava e sente-se um inútil sem ela), onde deveríamos não apenas explicar a história com a teoria de um dos autores que estudamos em sala de aula, mas reconstruir a história no campo da educação de acordo com essa teoria. Imediatamente inúmeras situações de angústia sob o viés de Freud me vieram à mente. Perdas, traumas, regressões. As possibilidades eram diversificas e complexas. Mas meu sábado infelizmente não possui 48 horas, e como ainda não aprendi a manipular o espaço-tempo, tampouco a linearidade irreversível dessa contagem cronológica impiedosa, apenas rascunhei o que escreveria e parti para outros trabalhos da mesma matéria. Adiantei uma atividade de Piaget aqui e outra sobre Skinner ali. A essa altura, o fone tinha silenciado por um período e depois voltado à ativa numa mescla de Grégory Lemarchal e Cher.
Quando o iTunes começou a tocar “Heart of Stone” e os versos simples e impactantes da canção ecoaram na minha cabeça, fui levada de volta ao tema da angústia. Na voz poderosa da cantora americana, a pergunta “Don't you sometimes wish your heart was a heart of stone?” [3]adquire um peso de ansiedade e desamparo impressionante. Os versos compactos e objetivos que se seguem caem como pedaços físicos da realidade à nossa volta, como se ela se desintegrasse violentamente. Imagine o tecido do real rasgando bem na sua frente e despencando diante de seus pés, deixando transparecer nada mais do que um vazio absoluto e ao mesmo tempo lotado de desespero. “Look at the headlines! Big crowd at the crazy house, long cue for the joker's shoe, ten rounds in the ring with love. Do you lose and win, or win and lose” [4]. A pontuação com um grito que é quase um pedido de socorro clamando “Mercy! Mercy! Wish your heart was a heart of stone!” [5] é o ápice da expressividade frente a uma cornucópia de exageros informacionais. Sofrimentos dos quatro cantos do mundo, pulsando em suas particularidades tão distantes de nossas mãos sedentas por uma redenção e ao mesmo tempo tão próximos de nossos sentidos de consumidores imagéticos. Enlouquecer perante tanta impotência ou deixar-se enganar conscientemente pela piada. Mas, ah, meus amigos, o comediante está morto. Acaso não leram Watchmen?
Entre Freud, Kierkegaard, Sartre e outros pensadores, nesse sábado eu preferi a definição de uma simples música. Ao final de uma sequência caótica de colagens plásticas mentais e criações e desconstruções conceituais que se perderam nos confins das minhas sinapses, o último verso de “Je T’écris” na voz de Grégory Lemarchal finalizou minha entropia particular e acalmou minhas percepções, transportando-me de volta ao estado de contemplafantasiação, dessa vez upado para um level superior de ambivalência.
Terminei meu sábado da maneira que terminarei esse texto.
“Je t’écris ébloui par tant d’humanité”. [6]
Notas:
[1] “então explodimos em cores, cores e carrosséis” (Tradução minha).
[2] Fonte: “Angústia (Freud)”, texto de Roberto Girola, acessível em http://www.robertogirola.com.br/psicanalise/angustia-freud#Tema3
[3] “Você não deseja, às vezes, que seu coração fosse de pedra?” (Tradução minha).
[4] “Olhe para as manchetes! Multidão no hospício, uma longa fila para os sapatos do comediante, dez voltas no circuito com amor. Você perde e ganha, ou ganha e perde?”. (Tradução minha). Aqui há um sentido duplo, já que, em inglês, o verbo to lose significa perder não apenas algo material, físico, mas também perder a sanidade. Em outra parte da música, o mesmo tipo de ambiguidade é expressado. Na passagem "Are you down and up, or up and down?". Na tradução literal: "Você cai e levanta, ou levanta e cai?" ou "Você está mal e bem, ou bem e mal". A expressão "down" significando "baixo", "caído" ou "mal" de "estar mal" e "up" significando "pra cima", "levantado", ou "bem" de "estar bem".
[5] “Misericórdia! Misericórdia! Deseje que seu coração fosse de pedra!” (Tradução minha).
[6] “Escrevo-te embevecido por tanta humanidade” (Tradução minha).
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Alliah é escritora, desenhista e pintora. Natural de Niterói/RJ e com 19-quase-20 anos, estuda Educação Artística/Artes Plásticas na UFRJ. Contemplafantasiar é seu neologismo preferido atualmente. Publicou contos de ficção científica e fantasia em coletâneas nacionais e está preparando seu primeiro romance que, por acaso das probabilidades dentro desse sistema dinâmico não-linear chamado vida, não será nem de ficção-científica, nem de fantasia. Deveria ter sido uma rockstar, mas não sabe cantar. Tem blog, Twitter e e-mail.
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